Socializar em tempo de pandemia

É lugar-comum dizer que a pandemia da Covid-19 mudou as rotinas de cada um de nós, bem como moldou a nossa forma de socializar. Mas, em termos práticos, de que forma esta realidade nos tem afetado verdadeiramente?

Texto de: Cláudia Perdigão

No último ano, muitos têm sido os cientistas sociais que têm manifestado preocupação com os danos que o isolamento social pode provocar. A depressão, abuso de substâncias como álcool ou drogas e violência doméstica são algumas das consequências apontadas

De acordo com uma investigação da Fundação Kaiser Family, cerca de 45% dos americanos afirmam que a pandemia do coronavírus afetou a sua saúde mental. As compras de tabaco e álcool aumentaram, assim como a aquisição de armas.

Em Portugal, Raquel Raimundo, presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses, em entrevista ao Jornal Público alertava para o aumento de casos de cyberbullying, devido ao aumento da utilização dos dispositivos informáticos.

Situações de violência doméstica aumentaram também em território nacional. No primeiro trimestre de 2020, apenas nas linhas telefónicas e canais digitais, os registos de pedidos de ajuda aumentaram 180% face ao primeiro trimestre de 2019.

Para Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, o distanciamento físico, o isolamento e, nalguns casos, a solidão “causam muito sofrimento e deixam marcas duradouras em muita gente, nomeadamente em populações mais vulneráveis como crianças, adolescentes,  e idosos”.

Face aos dados apurados, tentamos saber um pouco mais acerca do impacto causado pela pandemia junto de uma família tipicamente portuguesa, constituída por um casal com um filho menor. Há sensivelmente um ano, no artigo, “Os parabéns da Geração Alfa” falámos com esta mesma família para saber como eram festejados os aniversários do elemento mais jovem do agregado familiar, a pequena Lara. Este ano, tentamos saber não apenas como festejam os dias especiais, mas também quais as alterações na sua dinâmica familiar.

Andreia Tavares, mostra-se resignada com a nova realidade. “Não me sinto particularmente afetada com o confinamento: Porém, confesso que as rotinas diárias são, por vezes, um desafio. Ter de trabalhar, fazer a lida da casa, confecionar as refeições e auxiliar a Lara nas tarefas escolares, tudo em simultâneo, é o cabo dos trabalhos”, afirma com um sorriso no rosto.

Já Jorge Tavares manifesta-se mais assoberbado. “Ter uma criança de sete anos a correr o dia inteiro em casa, enquanto tento resolver questões laborais é muito complicado”.

O início das aulas virtuais deixa o casal ansioso. Andreia relembra que “o ano passado foi extremamente trabalhoso e a Lara estava apenas na pré. Este ano é mais a sério”.

Jorge concorda e acrescenta que “o facto da Lara ser ainda muito pequena não ajuda em nada na tarefa. É ainda muito dependente de nós. Temos de estar presentes em tudo: aulas, trabalhos, rotinas diárias”.

No que respeita às comemorações, os efeitos da pandemia também se fazem sentir. Quanto ao aniversário da Lara, “este ano fomos só nós os três”, confidência Andreia com alguma tristeza.

“Fiz questão de decorar a sala com bandeirolas, balões e outros enfeites alusivos ao tema escolhido pela Lara. A ementa foi também melhorada e não dispensei o bolo, mas confesso que senti um vazio, por não haver mais convidados”.

“A grande vantagem foi a poupança”, graceja Jorge. Este ano com pouco mais de 50,00€ fizemos a festa. Recordamos que, o ano passado, o casal Tavares gastou mais de 450,00€ com as comemorações do aniversário da filha.

Apesar das dificuldades, os três mantêm-se resilientes e otimistas. Andreia já só pensa no desconfinamento e adianta que está a preparar uma grande festa para a família para o final do confinamento.

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